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DO NOSSO PATRIMÓNIO CULTURAL ...(CANTAR E BAILAR AS SAIAS), por Francisco Galego

O património cultural de Campo Maior não consiste apenas, nos muros que restam do tempo passado. Campo Maior é uma terra habitada por uma comunidade que teceu uma história e uma cultura muito próprias. 
As Festas do Povo são a prova maior do poder de atracção que têm as manifestações duma legítima cultura local, que é muito nossa. Mas, sendo muito notáveis, não são a única realização própria da cultura campomaiorense.
“cantar e bailar as saias” constitui também, uma extraordinária manifestação da cultura campomaiorense. Infelizmente, a falta de cuidado que se está a verificar com a sua conservação, faz com que esteja tão ameaçada de desaparecer da nossa memória colectiva, como estiveram as muralhas das nossas fortificações que foram caindo e só recentemente se começou a recorrer aos meios necessários para as restaurar.
            Sendo Campo Maior a terra que ainda mais preserva este hábito de “cantar e bailar as saias” e, havendo tantos milhares de campomaiorenses a viver longe de Campo Maior, porque não organizar verdadeiros festivais de saias? Não em espectáculo de palco como, à revelia da tradição, agora se vai fazendo. Mas numa autêntica animação das ruas e das praças, como devem ser cantadas e dançadas “as saias”, para que sirvam de pretexto para que os nossos emigrantes, os visitantes e as novas gerações, se sintam motivados e compensados ao visitarem a nossa terra. Tenho a certeza de que muitos teriam tanto orgulho em mostrar esta manifestação cultural aos seus descendentes e aos visitantes, como têm de ver e mostrar as “Festas do Povo de Campo Maior”, tanto mais que, este festival, teria a vantagem de poder ser anual.
            Claro que se propõe que, para preservação da verdadeira tradição, as saias deviam ser cantadas e dançadas em “bailes de roda”, numa “toada de valsa lenta” e “armadas ao desafio” para construirem diálogos, ora de “amável converseio” ora “chistes de escárnio e de mal-dizer”.    
            Mas isto sou eu a imaginar...

Francisco Galego

Há cinco anos a informar Campo Maior, o Campomaiornews celebra o quinto aniversário


EDITORIAL

Há cinco anos a informar Campo Maior.
O Campomaiornews celebra hoje, dia 11 de Agosto, o seu quino aniversário. Foi precisamente neste dia que o blog joaquimfolgadonoticias.blogspot.com se transformou no projecto Campomaiornews, com o objectivo de divulgar as notícias de Campo Maior.
A partir de então, exclusivamente online, passou novamente, a existir “informação” em Campo Maior e, aos poucos os campomaiorenses foram conhecendo, aderindo e acreditando no Campomaiornews. 
Hoje somos uma realidade incontornável, e a prová-lo estão os milhões de visitas que recebemos nas várias plataformas digitais onde estamos presentes.
Sim, continuamos com a mesma equipa: um jornalista e um fotógrafo amador, que em muito - mas mesmo muito -, tem contribuído para o sucesso do Campomaiornews, o Joaquim Candeias.
O sucesso do nosso trabalho resulta, acima de tudo, da confiança que os campomaiorenses têm continuado a depositar em nós, e no nosso projecto. É com o desinteressado propósito de informar os campomaiorenses, de divulgar e promover Campo Maior, que trabalhamos. Ao contrário do que alguns possam pensar, e de outros que podem não gostar de nós, é exclusivamente na promoção de Campo Maior e das suas gentes que apostamos.
O chamado jornalismo de proximidade continua a existir, e recomenda-se. E o conceito de proximidade, hoje, é muito mais lato, não se cingindo apenas à distância, fruto da evolução da tecnologia. O jornalismo, apesar da evolução dos meios, continua a reger-se pelos mesmos princípios, e tem sido através desses princípios que o Campomaiornews se tem pautado, e vai continuar a pautar.
Com o quinto aniversário do Campomaiornews, quem está de parabéns é Campo Maior e os Campomaiorenses. Podem continuar a contar connosco.

NOTAS DE LEITURA, SOBRE HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR - II - A FORTIFICAÇÃO


A FORTIFICAÇÃO

Texto de Estêvão da Gama, in Notícias da antiguidade, aumento e estado presente da Villa de Campo Maior...Publ. por Rui Rosado Vieira, em 1993):

         “É esta Vila fortificada ao moderno, como uma das praças principais das fronteiras.
O seu recinto se ocupa com o Baluarte de S. João (1) e o de Santa Cruz, entre os quais os fossos que lhes correspondem são cheios de água, a que chamam o Lago e o Laguinho (2). Têm muita tenca e excelentes pardelhas (3). Conservam-se todo o ano com abundância de água que recebem dos ribeiros da Fonte Nova e do Laguinho. Ao Baluarte de S. Cruz se segue uma cortina (4) muito grande e, no remate dela, fica-lhe cavaleiro (5) o meio baluarte a que chamam do Curral dos Coelhos. A este se segue o que chamam Baluarte de Lisboa e a ele o Baluarte de S. Sebastião entre os quais está a porta da Vila que chamam de Santa Maria. Segue-se o Baluarte da Boa Vista, a este o Meio baluarte de Santa Rosa, que de novo se fabrica (6), a ele o Baluarte de São Francisco, o Baluarte da Fonte do Concelho e o Baluarte do Pixa Torta (7), cuja cortina fecha a Praça no Baluarte de S. João e nela está situada a porta principal que chamam de S. Pedro (8).
Tem excelentes fossos, bastantes esplanadas, estradas encobertas e, em algumas partes, contra-escarpas (9).
Tem seis revelins, dois fortes, o principal se chama  Forte de S. João (10) para a parte do nascente, o outro de Forte do Cachimbo, para a parte do meio-dia (11). E, porque há outra narração que lhe dá diferentes sítios, se põem estes que são os verdadeiros.
Esta fortificação principiou-a D. João IV e a têm continuado a Rainha D. Luísa, El-Rei D. Afonso VI, El-Rei D. Pedro II e El-Rei D. João V que Deus guarde.
Mas, sem embargo de não estar acabada e ter muitas imperfeições, resistiu ao Sítio que lhe moveram os castelhanos em 27 de Setembro de 1712 (12), governando aquele exército o Marquês de Bay e as nossas armas Pedro de Mascarenhas e a Praça Estêvão da Gama de Moura e Azevedo.”
(...) “É Campo Maior uma das praças mais importantes da Província do Alentejo fronteira de Badajoz, sem que, entre uma ou outra, haja rio ou serra que possam impedir as operações de cavalaria, está fronteira a Albuquerque que é a segunda praça da Província da Estremadura.”
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Notas explicativas:
(1) O Baluarte de S. João, era vulgarmente designado como "Cavaleiro" por ter no meio uma construção mais elevada..
(2) Estes fossos designados militarmente como "fossos molhados", eram muito eficazes em termos defensivos sendo raros em Portugal.
(3) Alguns documentos da época referem que estes peixes eram usados como alimento pela população.
(4)  Uma cortina de muralha.
(5) Na parte de cima.
(6) Que estava a ser reconstruido quando foi escrito este texto.
(7) Era assim designado pela população, mas o seu nome oficial era o de Baluarte do Príncipe, em homenagem ao principe D. João que, devido à doença mental de sua mâe, a rainha D. Maria II, teve de assumir o governo do reino, sendo depois coroado  como D. João VI.
(8) Durante muito tempo, a população designava-a como "a Porta Nova" e ficava no topo da rua onde se localiza agora a CURPI, dando abertura para o Largo dos Cavajais. Foi demolida por decisão da Câmara Municipal, em 1908.
(9) Os muros que, pelo lado de fora, delimitavam os fossos que cercavam as muralhas da fortaleza.
(10) Foi demolido. No terreno que ele ocupava foi depois construido o Estádio Capitão César Correia.
(11) Ainda são visíveis alguns muros para o lado direito de quem sai à Porta da Vila.
(12) Este cerco durou cerca de um mês, tendo o exército sitiante retirado por cansaço das tropas, desgaste dos materiais e chuvadas intensas que dificultavam a manutenção das trincheiras.

Francisco Galego

NOTAS DE LEITURA, SOBRE HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR - I - O CASTELO


O CASTELO

O castelo de Campo Maior é obra muito antiga e muito forte tanto pela razão do sítio como pelas torres e muros. Foi fabricado pelos mouros (1) e reparado pelo rei D. Dinis que levantou a maior torre que nele há e, por essa razão, quiseram alguns atribuir-lhe a honra de edificador. Os romanos lhe deram o nome com muita propriedade porque daquele sítio se descobre o maior campo que há por aquele distrito.(2)

Segundo o  Dr. Ayres Varella, Teatro das antiguidades de Elvas,
(In, Estêvão da Gama, p. 29)

Porém duvidamos que a povoação fosse fundada no sítio onde está o castelo. Talvez no sítio de S. Pedro no qual há uma ermida e onde, segundo fontes muito antigas haveria uma fortaleza ou atalaia dos romanos.(3)
Dista a Ermida de S. Pedro da povoação de hoje dois mil passos em terreno plano, com um vale muito fresco, capaz e hortas e pomares, com água nativa e conserva um chafariz que é do concelho desta vila. Estamos persuadidos de que neste campo, por ser o maior que há nestas vizinhanças, fundaram os romanos este povo, obrigados por um acampamento em que se fixaram como sucedeu nas outras mais povoações que fundaram, como é sabido. Neste campo de S. Pedro se acham as ruínas, cimentos, sepulcros, além de colunas. Distante um quarto de légua, conserva-se um muro de pedra e cal que corta um pequeno ribeiro e a que ainda hoje se chama Muro da Represa, que servia para que os gados dos moradores bebessem nele.
(Estêvão da Gama, Notícias da antiguidade, aumento e estado presente da Villa de Campo Maior... p. 30)

Outras fontes documentais referem que:(…) o castelo e a povoação que nele se desenvolveu foram fundados pelos  mouros porque este buscavam os lugares altos para fazerem as suas fortalezas. Com o seu desenvolvimento acabou a povoação de S. Pedro.
- A vila foi restaurada depois pelos Peres de Badajoz no ano de 1219 que a deram ao bispado da cidade para sua fábrica. Depois,  com o Tratado de Alcanizes (1297), foi integrada no reino de Portugal. Logo que El-Rei D. Dinis entrou na posse da vila reparou-lhe o castelo.
(Idem, ibidem)
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(1) Não conheço provas documentais que comprovem esta suposição.
(2) Na verdade os romanos usavam esta expressão Campus Major para designar campos extensos, bastante planos e abertos, logo muito aptos para o aproveitamento agrícola.
(3) Neste local designado como Ad Septem Aras, que se pode traduzir à letra como "Dos Sete altares", passava uma estrada romana. O nome permite formular a hipótese de ter sido um local de apoio para os que, em viagem, necessitariam de apoio religioso, de condições de higiene, de descanso e mesmo de enterramento dos seus mortos em chão sagrado..

Francisco Galego

CAMPO MAIOR NA CONJUNTURA DAS INVASÕES FRANCESAS, por Francisco Galego


(Por esta época, Campo Maior teria cerca de 5.000 habitantes)
No dia 1 de Dezembro de 1807, tinha entrado nesta vila o regimento de Guardas Walonas e um batalhão do Regimento de Córdova, que saíram no dia seguinte.(1)
No dia 11 do mesmo mês, entrou na vila o Regimento de Múrcia, que no dia 13, continuou a sua marcha.
No dia 8 de Janeiro de 1808, um batalhão dos Granadeiros Provinciais de Castela e no dia seguinte mais um batalhão do mesmo corpo, ficaram a fazer a guarnição da Praça, que só evacuaram em 16 de Março.
O comando espanhol tinha determinado que esta guarnição fosse sustentada à custa do povo, mas o Juiz de Fora conseguiu livrá-lo desta obrigação, vindo a mesma a ser assegurada pela Administração de Badajoz.
Um sargento-mor da Praça procurou revoltar o povo contra a frouxidão do governo português que tinha abandonado o Reino deixando-o em tão penosa situação. Mas o povo preferiu cumprir as ordens deixadas pelo príncipe regente e nada faltou ao fornecimento das tropas, sendo em parte providas pelo “Assento militar das provisões de boca” e, em parte, pelas pessoas particulares às quais eram passados escritos de divida, que nunca vieram a ser pagos. (2)
Campo Maior pode, contudo, considerar-se um dos Povos menos vexados pelos franceses.
O comando francês teve por mais acertado abandonar a Praça de Campo Maior. Em consequência deste abandono, os seus armazéns foram espoliados de toda a pólvora, munições e apetrechos de guerra, as armas dos particulares foram guardadas em depósito. O Regimento Nº 20 que constituía a sua guarnição, foi extinto e uma parte dele mandada para França. Esta extinção foi declarada no dia 14 de Maio de 1808. Os arquivos, espingardas e mais utensílios militares foram mandados para Elvas.(3)
Igual espoliação se verificou quanto ao Hospital Real Militar e ao Assento. Mas a povoação foi deixada em paz. À excepção de um Regimento de Suíços que entrara nesta Praça no dia 12 de Março e saiu no dia 13, não mais se viu tropa francesa, o que não foi pequena fortuna.
(Segundo o Padre João Mariano, p. 38 a 46)
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 (1) A Espanha tinha-se aliado submissamente ao poder militar de Napoleão, imperador dos franceses.
(2) Para escapar aos franceses que estavam quase a chegar a Lisboa e que o obrigariam a renunciar à coroa e à independência de Portugal, a favor de Napoleão Bonaparte, o príncipe D. João, depois coroado como D. João VI, que assumira a regéncia em nome de D. Maria I sua mãe, mentalmente afectada e incapaz de governar, embarcara com a família real e a corte para o Brasil em 21 de Janeiro de 1808, deixando recomendado que não se oferecesse resistência às tropas francesas.
(3) Esta expoliação e desarme ainda tornou mais notável o sucesso da revolução de 2 de Julho de 1808 que expulsou de Campo Maior as tropas espanholas ocupantes desta praça de guerra.

Francisco Galego

RETALHOS DE HISTÓRIA DA VILA DE CAMPO MAIOR..., por Francisco Galego


A primeira igreja matriz de Campo Maior, dedicada a Santa Clara, ficava dentro dos muros do primitivo castelo, no local onde agora se situa um armazém que, até ao início do século XX, serviu de salão para festas, bailes, representações teatrais e outros divertimentos. Este edificio ainda conserva na sua fachada a bilheteira que dá testemunho desta utilização.  
O crescimento da vila e da população, entre os séculos XII e XVI, tornou esta igreja demasiado pequena e de difícil acesso, porque localizada fora da nova zona urbana para onde crescera a povoação. Daí a necessidade de ser construida uma nova igreja. A igreja foi dedicada a Nª Sr.ª da Expectação, nome que foi também dado a uma das duas freguesias urbanas que existem em Campo Maior.
Esta nova matriz que o povo durante muito tempo designou como a “Igreja Nova”, foi construida entre 1570 e 1646. No seu patio lateral leste, foi construida a Capela do Calvário, em 1707. Nos meados do séc. XVIII procedeu-se à colocação dos altares, das tribunas, do cadeiral do altar-mor e à pintura do altar do Santíssimo Sacramento.
Em 1766, no mesmo pátio lateral, foi construída a Capela dos Ossos, em memória das mortes provocadas pela explosão do paiol que estava na torre de menagem, por efeito de um raio, durante uma trovoada, em 16 de Setembro de 1732, entre as três e as quatro horas da madrugada. Das cerca de mil habitações que compunham a vila, cerca de 800 ficaram total ou parcialmente destruidas. A própria igreja matriz ficou muito danificada. Igrejas, conventos e edifícios em geral, sofreram os desastrosos efeitos da explosão.
Numa população de cerca de 5.000 habitantes, morreram cerca de 250 pessoas e ficaram feridas cerca de 2.000.
Graças à rápida decisão de D. João V que ordenou que se acudisse com importante socorro, a vila foi restaurada em pouco tempo para que pudesse acolher a população sobrevivente e para garantir a sua função de praça de guerra, defendendo a fronteira de qualquer tentativa de invasão que poderia ocorrer. E a memória de tal possibilidade estava bem presente devido ao cerco sofrido em 1712 que, devido a uma tenaz resistência, tão importante fora para garantia da independência, da paz e da segurança do nosso território.

Francisco Galego

O MAJOR TALAYA - COMANDANTE DA PRAÇA DE CAMPO MAIOR DURANTE O CERCO DE 1811, por Francisco Galego


José Joaquim Talaya, nascido em Lisboa, na Freguesia da Ajuda, em 16 de Dezembro de 1757, pertencia a uma família de militares, muito prestigiada nas várias academias que, nesse tempo, constituíam os centros culturais e de convívio dos mais ilustrados.
Tendo já obtido a promoção em capitão, ligou-se pelo casamento a outra família de militares, a dos Silva Villar, casando, em 31 de Janeiro de 1799, com D. Rosa Clara Maria, filha legítima de um capitão e irmã de oficiais que se distinguiram como soldados das forças liberalistas, tal como os quatro filhos resultantes desse casamento, que também adoptaram a luta pela implantação e defesa do Liberalismo.
Tendo iniciado a sua carreia militar como oficial de infantaria, Talaya passou, depois dos estudos necessários, para a especialidade de engenheiraria militar.
Nomeado administrador da Real Fábrica da Pólvora em Barcarena, cargo que desempenhou durante alguns anos, em 29 de Abril de 1793 foi distinguido com a Ordem de S. Bento de Aviz, pela “distinção, zelo, honra, aplicação e actividade” com que desempenhou as suas funções.
Em 21 de Junho de 1800 foi promovido a sargento-mor.
Dez anos depois, o Major Talaya iria distinguir-se como comandante militar, numa situação muito difícil, como comandante militar da praça-de-guerra de Campo Maior.
Os antecedentes:
Devido à recusa de Portugal romper a sua aliança com os ingleses, em 28 de Fevereiro de 1801, a Espanha e a França declararam guerra a Portugal. As hostilidades começaram com a invasão do Alto Alentejo. As praças de guerra estavam muito pouco preparadas para a iminência do ataque.
A praça-de-guerra de Campo Maior sofrera um cerco em 1801. O exército português tinha-se estrategicamente retirado para lá do Tejo. Não havia, portanto, qualquer possibilidade de a praça ser socorrida.  Como quase todas as outras, esta praça de guerra dispunha de uma guarnição muito reduzida e estava muito mal armada. Tinha, interinamente, como comandante, o coronel de engenheiros Matias José Dias Azedo, que aí fora colocado para reparação das fortificações. No Alto Alentejo, só Elvas não foi ocupada.
Sabia-se que estava em Badajoz, numa delegação negociando a paz, estava um ministro português. 
Foi negociado o Tratado de Badajozassinado em 6 de Junho de 1801. Mas as tropas espanholas só abandonaram a praça de guerra de Campo Maior, no dia 22 de Novembro de 1801. Devido aos bombardeamentos e à acção dos soldados, franceses e espanhóis que a ocuparam quase meio ano, tanto a vila, como as estruturas da sua fortaleza, sofreram forte destruição.

Em 1810, o engenheiro militar Talaya, foi enviado para Campo Maior por William Beresford que organizara e comandava o exército portiguês, com o encargo de proceder à reparação das fortificações, fazendo executar os projectos elaborados pelo engenheiro militar Matias José Dias Azedo, seu antecessor, bem como outras obras que entendesse necessárias para colocar a praça em melhores condições de resistência.
Por essa altura, tendo falecido o governador da praça, o sargento-mor Talaya, teve de assumir o cargo de governador, à semelhança do que ocorrera com Dias Azedo, em 1801.
No início de 1811, começou a 3ª invasão francesa comandada por Massena.
Em 11 de Março de 1811, tropas francesas, comandadas por Soult, tomaram Badajoz. Soult deu indicações a Mortier para que tomasse Campo Maior.
Esta praça, além de uma guarnição muito escassa e com fraca preparação militar, estava muito mal provida de munições, pois tinha sido despojada após a sua rendição no cerco de 1801.
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Texto elaborado com “notas de leitura” das seguintes obras:
- Cláudio de Chaby - EXCERTOS HISTORICOS E COLLECÇÃO DE DOCUMENTOS RELATIVOS À GUERRA DENOMINADA DA PENÍNSULA E ÀS ANTERIORES DE 1801 E DO ROUSSILLON E CATALUNHA. Imprensa Nacional, 1863.
- O CÊRCO DE CAMPO MAIOR EM 1811- Comissão do 1º Centenário da Guerra Peninsular 1811-1911Lisboa, Imprensa Nacional, 1911.
- Luís Couceiro da Costa - MEMÓRIAS MILITARES DE CAMPO MAIOR. Editor – António Torres de Carvalho, Elvas, 1912.
UMA CELEBRAÇÃO MAIOR EM CAMPO MAIOR – O CERCO DE 1811. Campo Maior, 2011. Elab. por Francisco Pereira Galego. Ed. Município de Campo Maior, 26 de Março de 2011.
- Francisco Pereira Galego - CAMPO MAIOR NA OBRA DE JOÃO DUBRAZ - VOL. I - MEMÓRIAS HISTÓRICAS DE CAMPO MAIOR – Ed. Município de Campo Maior, 2017.

Francisco Galego

CAMPO MAIOR – A ANTIGA PRAÇA DE GUERRA, por Francisco Galego


É Campo Maior uma das praças mais importantes da Província do Alentejo, fronteira de Badajoz, sem que entre uma e outra haja rio ou serra que possam impedir as operações de cavalaria. Faz também fronteira  com Albuquerque que é a segunda Praça da Província da Estremadura. 
(...) É esta Vila fortificada ao moderno, como uma das praças principais das fronteiras. O seu recinto é formado pelo Baluarte de S. João (1) e o de Santa Cruz, entre os quais o fosso que lhes corresponde é cheio de água. À sua parte maior, que é a que envolve o Baluarte de S. João, chamam o Lago; à parte mais pequena,  a que envolve o Baluarte de Santa Cruz, chamam o Laguinho. Têm as suas águas, muita tenca e excelentes pardelhas (2). Conservam-se todo o ano com abundância de água que recebem dos ribeiros da Fonte Nova e do Laguinho. Ao Baluarte de S. Cruz segue-se uma cortina muito extensa e, no remate dela, fica-lhe, a cavaleiro (3), o meio baluarte a que chamam do Curral dos Coelhos. A este segue-se o que se chama Baluarte de Lisboa. Entre este e o Baluarte de S. Sebastião está a Porta da Vilaa que chamam de Porta de Santa Maria. Segue-se o Baluarte da Boa Vista, a que se segue o Meio Baluarte de Santa Rosa, que está a ser restaurado;  a ele seguem-se, o Baluarte de São Francisco, o Baluarte da Fonte do Concelho e o Baluarte do Picha Torta (4), cuja cortina fecha a Praça no Baluarte de S. João e, nessa cortina, está situada a porta principal  da vila, a que chamam Porta de S. Pedro (5).
Tem excelentes fossos, bastantes esplanadas, estradas encobertas e, em algumas partes, contra-escarpas.Tem seis revelins, dois fortes, o principal chama-se Forte de S. João (6) e fica para a parte do nascente, o outro chamado  Forte do Cachimbo , fica mais para a parte do meio-dia (7).
Esta fortificação principiou-a D. João IV, tendo-a continuado a Rainha D. Luísa, El-Rei D. Afonso VI, El-Rei D. Pedro II e El-Rei D. João V, que Deus guarde.
Mas, sem embargo de não estar acabada e ter muitas imperfeições, resistiu ao Sítio que lhe moveram os castelhanos em 27 de Setembro de 1712, governando aquele exército o Marquês de Bay e as nossas armas Pedro de Mascarenhas e sendo governador da Praça, Estêvão da Gama de Moura e Azevedo.”
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(In, Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, Notícias da Antiguidade, Aumento e Estado Presente da Vila de Campo Maior, (pág.s 79 e 80).
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(1) Vulgarmente designado como "Cavaleiro".
(2) Os peixes costumam garantir a limpeza das águas. Mas, segundo testemunhos da época, estes peixes eram pescados e usados na alimentação pela população. Daí terá resultado uma continuada redução, provavelmente até à extinção.
(3) Sobreposto ou sotoposto.
(4) Este baluarte,aparecia assim nomeado nas plantas militares. Mas, porque esta designação deixou de ser apropriada, numa linguagem socialmente aceitável, passou a ser designado como Baluarte do Príncipe, em homenagem ao futuro D. João VI que, devido à instabilidade mental da rainha D. Maria I, sua mãe, era ele quem efectivamente, reinava em Portugal.  Este baluarte ocupava o espaço do quadrilátero irregular hoje confinado pela Avenida da Liberdade (lados N. e N.E.), pela Estrada Militar (lado S.) e pelo terreno ocupado pela Creche da Santa Casa da Misericórdia. Este espaço está agora  ocupado por prédios de habitação, por garagens e por armazéns. Da estrutura militar primitiva, restam apenas um pano de muralha, no lado virado a N. e outro confinando com o terreno onde está a Creche.  Ligava-se por uma cortina de muralha rodeada de fosso, orientada para S.E, com o baluarte da Fonte do Concelho e por outra cortina, com o Baluarte de S. João (dito a Cavaleiro), na direcção N.W.
(5) Por ter sido construída mais tardiamente, a chamada "Porta de S. Pedro" foi,  durante muito tempo, designada como  a "Porta Nova". Passou a ser o  principal acesso à vila, quando foi aberta uma nova ligação  à estrada para a cidade de Elvas que passava pela Fonte Nova, donde deriva também a estrada para Portalegre, passando por Degolados e Arronches.
(6) Era vulgarmente designado como "Forte das Pesetas". Foi depois demolido porque, devido à sua colocação e disposição, em caso de "sítio" constituiria uma posição perigosa, se ocupada pela artilharia das forças sitiantes.
(7) Ou seja, perto da estrada que, saindo pela porta de Santa Maria, faz a ligação à estrada para Elvas.

Francisco Galego

A DEFESA DE CAMPO MAIOR PELO MAJOR TALAYA, por Francisco Galego


Vejamos, numa listagem sucinta, os factos mais importantes da acção militar do Major Talaya, como comandante da praça de guerra de Campo Maior, durante o memorável Cerco de 1811:

Em 8 de Março, começou o cerco à fortaleza de Campo Maior pelo exército francês comandado pelo marechal Mortier que permanecia em Badajoz. Este mandou Girad cercar a vila que, organizado o cerco, intimou o Major Talaya, seu comandante, a render-se. Talaya recebeu os emissários, rodeado de artilheiros, milicianos, ordenanças e reformados do extinto regimento 20, mas fê-los comparecer fardados de oficiais de vários corpos para parecer que Talaya comandava uma numerosa guarnição.
Em 9 de Março, foi posto cerco à Praça por uma força de 4 a 5 mil sitiantes. Talaya dispunha de menos de 500 homens armados. Mas, porque sabia que Beresford estava a caminho, na esperança de ser socorrido, procurou resistir.  
Em 10 de Março, a cidade de Badajoz foi conquistada pelas forças francesas de Soult.
Em 13 de Março, Soult iniciou o regresso à Andaluzia com uma parte das forças que tinham estado concentradas em torno de Badajoz.
Em 16 de Março, deu-se o combate da Foz de Arouce, vencido o qual, Wellington obrigou o exército francês a continuar a retirada.
Em 20 de Março, Talaya negociou a rendição, na condição de só se efectuar se, até às 2 horas da tarde do dia 22, não fosse socorrido.
Talaya só tinha pólvora para mais um dia e os milicianos de Portalegre não queriam continuar a lutar. Contudo, com esta negociação ganhou a resistência por mais dois dias.
Em 22 de Março saiu, com honras militares, às 2 horas da tarde, com 30 artilheiros e alguns milicianos.
Em 24 de Março, entraram os franceses.
Em 25 de Março, os franceses retiraram à pressa devido à chegada de Beresford.
Em 3 de Abril, deu-se o combate de Sabugal, em que Wellington bateu Reynier e obrigou Massena a abandonar Portugal.
Em 5 de Abril, o exército francês comandado por Massena atravessou a fronteira entre Portugal e Espanha, em Aldeia do Bispo.
(Acabou assim a 3.ª Invasão de Portugal pelos franceses) 
Efectivamente, a acção do Major Talaya como comandante durante o Cerco de Campo Maior de 1811 foi, sobretudo muito notável, tendo em conta as dificílimas condições em que teve de actuar, devido à excassez de recursos. A Praça estava muito mal guarnecida de tropas, de munições, de equipamentos militares e de mantimentos, pois apenas dispunha de:
            -  45 artilheiros, com um equipamento constituido por:
            -  30 peças de artilharia;
            -  2 obuses, morteiros, pequenas quantidades de balas e de pólvora;
            -  230 homens de um regimento de milícias de Portalegre;
            -  300 ordenanças da vila, mas só havia armas para 100;
Em quase todas as referências à acção do Major Talya, como comandante durante o cerco de Campo Maior, sobressaem as que testemunham a maneira como ele procurou suprir as grandes dificuldades que tinha, tanto ao nível dos recursos humanos, como dos meios militares, para assegurar a defesa da Praça.
Recorrendo a uma estratégia fundada em inteligentes, prudentes e astutas tácticas, conseguiu iludir as dificuldades para ganhar a dilatação do prazo, até ao inevitável momento da rendição.
Simulou ter mais gente do que aquela de que realmente dispunha. Escondeu os pontos fracos de defesa. Iludiu dificuldades de resposta. Aparentou possibilidades que, na verdade, não existiam.
Recorrendo a uma estratégia de simulação, conseguiu ocultar a gravidade da situação que tinha de gerir. Com uma aparente serenidade evitou que se tornasse evidente a gravidade da situação que teve de enfrentar.
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NOTA: Como mera hipótese, consideremos que o Major Talaya, dados os tão fracos recursos de que dispunha (em homens, armas e munições), se tivesse desde logo rendido como antes tinha feito o governador de Olivença. Nesse caso, Campo Maior faria agora parte do terrotório português? Ou aí reside a razão de, até hoje, o  nome do Major Talaya constar na designação de uma das principais ruas desta vila que, devido à sua defesa em 1811, inclui no seu brasão as palavras:
LEALDADE E VALOR e
LEAL e VALOROSA VILA DE CAMPO MAIOR?

Francisco Galego

D. JOÃO V - UMA VISITA REAL A CAMPO MAIOR, por Francisco Galego


Nas casas de João de Aguiar Mexia(1), no Terreiro das Estalagens(2), se tem acomodado o Sr. Infante D. Francisco, as três vezes que tem vindo a esta Praça. Sendo a primeira em segunda-feira, 18 de Dezembro do ano de 1713, a segunda em 14 de Setembro de 1714 e a terceira em 13 do dito mês de Setembro de 1715.(3)
Nestas casas se fez aposentadoria para S. Majestade, que Deus guarde, no ano de 1716. De que não usou porque, vindo no dia 12 de Novembro a esta Praça, voltou no mesmo dia a Elvas, por causa da chuva que sobreveio (4).
João V, vinha acompanhado de seus irmãos, os Senhores Infantes D. Francisco e D. António, todos em coche e, com eles: o Marquês de Marialva, D. Diogo de Noronha, camarista de Sua Majestade; D. Duarte António da Câmara, depois Conde de Aveiras, camarista do Sr. D. Francisco; e Rodrigo de Melo da Silva, depois Conde de S. Lourenço, camarista do Sr. D. António. Acompanhava Sua Majestade, o Duque de Cadaval, D. Nuno Álvares Pereira, Mestre de Campo General junto à sua real pessoa e Governador das Armas da Província de Estremadura, o qual vinha a cavalo.
Governava esta Praça o Brigadeiro Estêvão de Moura e Azevedo, o qual teve ordem por carta do Secretário de Estado, Diogo Mendonça de Corte Real, escrita no dia antecedente, para que não fizesse nenhuma demonstração militar, nem política, porque S. Majestade estava incógnito e assim o ordenava (…)
O governador esperou El-Rei à entrada da porta da Praça com os Coronéis D. Felipe Alarcão de Mascarenhas, do Regimento de Infantaria; Martinho Afonso Mexia, do Regimento de Cavalaria; o Tenente Coronel de Cavalaria João da Rocha de Vasconcelos; o Sargento-Maior de Infantaria, Fernão da Mesquita Barba; o Sargento-Maior da Praça, Francisco da Silveira; e muitos outros oficiais.
Sua Majestade não se deteve e se foi apear à Igreja de S. João Baptista, aonde lhe beijaram as mãos os oficiais referidos e os da Câmara e algumas pessoas particulares. Daí passou a ver o Castelo e, na Praça de Armas estava formado o Regimento de Infantaria.
Subiu El-Rei à Torre Grande e dela viu toda a Praça e o terreno em que foram abertos os ataques para o Sítio do ano de 1712. Daí passou à Igreja Matriz onde foi recebido com Pálio e Te-Deum Laudamus e com mais cerimónias do ritual.
Tornou a entrar no coche e, sem mais demora, voltou a Elvas, desaprovando o dia a resolução de dormir uma ou duas noites nesta Praça, para o que tinha chegado a ela João Xavier a preparar as casas sobreditas, nas quais quis seu dono manifestar o ardente desejo de servir a Sua Majestade, mandando prover a sua ucharia (5) de tudo o que pode permitir o pouco tempo de uma noite e uma manhã.
Mandou S. Majestade dar cem moedas para os soldados da guarnição da Praça.
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In, (Estêvão da Gama, Notícias da Antiguidade, Aumento e Estado Presente da Vila de Campo Maior (...), ( p. 52 e 53)
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(1) Refere-se ao que foi depois chamado Palácio de Olivã, onde agora está instalada a Biblioteca Municipal João Dubraz; a Repartição das Finanças Públicas e o Lagar-Museu do Azeite.
(2) Hoje Largo do Barata. Chamava-se "das Estagens", pela mesma razão porque a actual Rua da Poterna, se chamou "Rua da Estalagem Velha". Pois que,  por estarem situadas perto das entradas da vila, ali estavam as casas onde se acomodavam os visitantes.
(3) Estas visitas tinham como finalidade, acompanhar a reconstrução da vila que ficara muito afectada como consequência da destruição provocada pelo Cerco de 1712.
(4) Nesta época não existia ainda a ponte sobre o Caia, tendo este rio que ser passado a vau, coisa que se tornava impraticável na situação de grandes chuvadas.
(5) Ucharia = despensa provida de bens alimentares e outros, destinados à acomodação dos hóspedes que se recebiam em casa.

Francisco Galego

O CERCO DE CAMPO MAIOR DE 1811, por Francisco Galego


Em 1810, o engenheiro militar Talaya, foi enviado para Campo Maior por William Beresford que organizara e comandava o exército portiguês, com o encargo de proceder à reparação das fortificações, fazendo executar os projectos elaborados pelo engenheiro militar Matias José Dias Azedo, seu antecessor, bem como outras obras que entendesse necessárias para colocar a praça em melhores condições de resistir  qualquer ataque ou cerco, pois a Europa estava então no período das guerras desencadeadas pelos exércitos de Napoléão Bonaparte .
Por essa altura, tendo falecido o governador da praça, o sargento-mor Talaya que era engenheiro militar encarregado de restaurar as fortificações, teve de assumir o cargo de governador, à semelhança do que ocorrera com Dias Azedo, em 1801.

No início de 1811, começou a 3ª invasão francesa comandada por Massena.
Em 11 de Março de 1811, tropas francesas comandadas por Soult, tomaram Badajoz. Este deu indicações a Mortier para que tomasse Campo Maior.

A praça além de uma guarnição muito escassa e com fraca preparação militar, estava muito mal provida de munições, pois tinha sido despojada pelas tropas francesas e espanholas que a ocuparam, após a sua rendição no cerco de 1801.

Efectivamente, a acção do Major Talaya como comandante durante o Cerco de Campo Maior de 1811, iria ser sobretudo muito notável, tendo em conta as dificílimas condições em que teve de actuar, devido à excassez de recursos. A Praça estava muito mal guarnecida de tropas, de munições, de equipamentos militares e de mantimentos, pois apenas dispunha de:
            - 45 artilheiros, com um equipamento constituido por: 
           - 30 peças deartilharia; 2 obuses, morteiros, pequenas quantidades de
              balas e de pólvora;
            - 230 homens de um regimento de milícias de Portalegre; 
            - 300 ordenanças da vila, mas só havia armas para 100.

O escritor e historiador João Dubraz, que nasceu em Campo Maior em 1818, ainda conheceu muitos dos que tinham testemunhado directamente os acontecimemtos ocorridos durante o Cerco de 1811. Na sua obra publicada em 1869, descreveu assim as condições da rendição que reflectem os resultados da acção do Major Talaya, como governador da Praça de Guerra de Campo Maior, numa situação de extrema dificuldade. Elas justificam a maneira como, o Major Talaya, ainda é celebrado como figura maior da História de Campo Maior:

Insistir por mais tempo na defesa era temeridade. Tinham escasseado as munições; algumas peças de artilharia estavam apeadas; um dia mais de resistência teria feito cair a praça por si mesma, isto ainda supondo que não fosse entrada. Mas tinha sido preciso ocultar a fraqueza e nunca se mostrou.

(...) Eis o texto oficial da capitulação, tão honrosa quanto o apuro das circunstâncias o permitia.
“O Sr. general de divisão, barão de Girard, comandante do exército do cerco em frente de Campo Maior, sob as ordens do marechal duque de Treviso, (general Mortier) de uma parte e o sr. José Joaquim Talaya, governador da praça, da outra parte, convieram nos artigos seguintes:
1º - A Praça de Campo Maior será entregue às tropas de sua majestade o imperador e rei, amanhã, dia 22 de Março, pelas duas horas da tarde se, durante este tempo, a praça não for socorrida. A guarnição ficará prisioneira de guerra e desfilará pela brecha, depondo as armas sobre a esplanada. Os Srs. oficiais sairão com as suas espadas e equipagens e os soldados com as suas mochilas.
2º - Os oficiais e soldados de milícias e ordenanças poderão retirar-se para suas casas, depois de terem jurado não servir contra os exércitos de sua majestade o imperador e rei e seus aliados.
3º - Os portugueses e espanhóis feridos serão tratados com consideração e, quando estejam restabelecidos, serão sujeitos aos artigos da capitulação.
4º - Os habitantes serão respeitados nas suas pessoas e propriedades e não poderão ser inquietados pelo que fizeram antes de se render a praça.
O S.r governador fica autorizado a voltar para sua casa em contemplação à sua avançada idade e moléstias, depois de dar a sua palavra de honra de não tomar armas contra o exército de sua majestade o imperador e rei e seus aliados.
(Seguem-se as assinaturas do general e do governador).

A guarnição desfilou pela brecha, em conformidade com o artigo 1º da capitulação. Mas, a pequena força que saiu dos muros fez crer a Girard que a maior parte ficara dentro e, nessa persuasão, disse para Talaya:

            - “Senhor governador, mande sair o resto da guarnição”.
            - “Está aí toda, senhor barão, respondeu aquele”.

Girard enfiou e houve-se por afrontado. Os seus oficiais, esses tiraram melhor partido do caso: Riram-se da pilhéria, fazendo diversão com o garbo negativo dos milicianos.

No dia 25 os franceses evacuaram precipitadamente a praça porque, tendo passado ao Alentejo o exército anglo-lusitano às ordens de Beresford e entrado a 20 em Portalegre, a 25 estaria o marechal na herdade do Reguengo, dez quilómetros distante da vila.

Francisco Galego

O CERCO DE CAMPO MAIOR DE 1801, por Francisco Galego

Na manhã do dia 20 de Maio de 1801 apareceu, sobre as alturas da Cabeça Aguda, a 4ª Divisão do exército espanhol… que, assenhoreando-se logo da campanha, formou o sítio da praça. E, tendo-se esta de antemão preparado para fazer uma defesa porfiada, se rendeu por capitulação no dia 6 de Junho com inexplicável mágoa dos habitantes que desejavam o prolongamento da resistência, chegando muitos ao ponto de representar ao governador, que então era Matias José Dias Azedo, que desistisse da rendição e continuasse na defesa. Os egoístas e os fracos, que sempre os há e que por toda a parte se encontrarão, temeram. Azedo sossegou os ânimos e cedeu às circunstâncias. Talvez porque o estado das coisas pedisse isso mesmo, pois dependia de Campo Maior a tranquilidade do Alentejo e do reino. Pois que, enquanto esta praça resistisse, as hostilidades não cessavam nem se ultimava a negociação da paz em Badajoz.
            A obstinação que Azedo tinha mostrado nos 18 dias que durou o cerco e o bombardeamento da vila, tinha azedado de tal modo os espanhóis que estes chegaram a passar a ordem de multiplicarem as baterias e se avivar o fogo para arrasarem a fortaleza. E não podia deixar de ser assim porque os franceses, que estavam aliados aos espanhóis, já começavam a mostrar descontentamento pela demora de se obter a rendição desta pequena praça de guerra.
            A praça rendeu-se com efeito em 6 de Junho mas a guarnição militar ganhou o direito a todas as honras militares. A povoação tinha sido atingida por 8.342 balas de canhão, 257 bombas e 1.217 granadas.
            Assinada a paz, foi a vila evacuada pelas tropas espanholas no dia 22 de Novembro de 1801.
            Não se descuidaram os habitantes de reparar as ruínas provocadas pelo bombardeamento; as suas casas estavam em breve habitáveis. Mas a reparação não foi geral. Mais de 10 anos depois ainda se viam sinais de destruição na Igreja Matriz, no Convento de São Francisco, nas Casas da Câmara e em alguns outros edifícios.
            As fortificações não foram prontamente reparadas, nem era de esperar que tão depressa o fossem, porque, devido ao parecer dos inspectores que as vistoriaram, estava resolvido abandonar esta praça de guerra por falta de condições de defesa.
Campo Maior foi desguarnecido de artilharia. As suas duas portas ficaram sem pontes levadiças, as suas muralhas ficaram arruinadas tendo ficado quase destruído o Forte do Príncipe e derrubados dois grandes pedaços de muro entre os baluartes de São Francisco e de Santa Rosa e outro no lado ocidental do baluarte de São Sebastião.


In, Frei João Mariano de Nª Sª do Carmo Fonseca - Memória Histórica da Junta de Campo Maior. 1813

Francisco Galego

A DEFESA DA FRONTEIRA DO ALENTEJO EM 1641, por Francisco Galego


Houve uma urgente necessidade de reforçar a defesa da fronteira do Alentejo, no inicio de 1641, começo da "Guerra da Restauração".
O conde de Vimioso, que assumiu o posto de capitão-general do Alentejo, concentrou os meios de defesa em Elvas, sendo depois substituido por Matias de Albuquerque que devastou algumas terras da Estremadura espanhola, tendo obtido uma importante vitória no lugar de Lobon, perto do Montijo. Esta Batalha do Montijo deu grande ânimo ao exército português, tendo Matias de Albuquerque sido agraciado com o titulo de Conde de Alegrete.
 O conde de Monterrey, fortificado em Badajoz, atacou Campo Maior e Olivença. Campo Maior apesar de dispor de poucos meios, resistiu. O ataque a Olivença foi mais violento  mas resistiu por ter esta vila ter sido prontamente socorrida.
Foi feito um grande esforço para reparar as fortalezas e castelos da raia, alguns dos quais estavam desmantelados.
A guerra recrudesceu em meados de 1648. Elvas tornou- se o alvo privilegiado dos ataques que fizeram perigar a defesa da cidade que sofreu um cerco de três meses: Outubro, Novembro e Dezembro. A peste agravou muito a situação de defesa da cidade, chegando a fazer 300 mortos por dia.
Quando cehegaram reforços, sob o comando do conde Cantanhede, às quais se juntaram as guarnições de Juromenha, Vila Viçosa, Borba, Campo Maior, Arronches e Monforte, foi possível passar ao contra-ataque a fim de impedir que o exército inimigo fosse atacar Lisboa. Obter uma vitória significaria assegurar a independência do reino.
No dia 14 de Janeiro de 1659, deu-se a batalha que constituiu um dos momentos mais altos para a vitória final na Guerra da Restauração: A Batalha das Linhas de Elvas.
Na manhã de dia 15 foi tomado o Forte da Graça. Os catelhanos deixaram mais de 5.000 prisioneiros, muitos mortos, alguns afogados no Caia e no Guadiana. Os outros foram refugiar-se em Badajoz.
  1. Sancho Manuel, devido a esta vitória, recebeu o título de conde de Vila Flor. O relato deste feito foi registado pelo conde da Ericeira.
Contudo, a guerra ainda se reacendeu nos anos de 1663 a 1665, em que se deram as últimas campanhas da Restauração.
Seguidamente começou uma crise política interna, no reinado de D. Afonso VI.
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IN, Joaquim Veríssimo Serrão – HISTÓRIA DE PORTUGAL, Vol. V (1640- 1750) - A RESTAURAÇÃO E A MONARQUIA ABSOLUTA, Ed. Verbo
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Francisco Galego

AINDA SOBRE JOÃO DUBRAZ ... , por Francisco Galego


Senhor Presidente:
Revocando(1) ao ponto que me levou a pedir a palavra tenho a honra de paticipar a V.Exa. que vou mandar para a mesa um requerimento de que me fez portador o sr. João Dubraz, digníssimo professor de Latim em Campo Maior (Alemtejo).
Pede este meu amigo e esclarecido professor que, na futura reforma da instrução secundária, ele e os da sua classe, sejam considerados com alguma providência que lhes garanta o futuro e recato das inclemências do presente.(2)
Parecem-me boas as razões que aduz em defesa da sua justiça. Entretanto, como a comissão respectiva é que há-de julgá-la, eu peço a V.Exa que remeta para a comissão esse requerimento e, ouso crer que, à ilustração dos dignos membros que a compõem, não passarão desapercebidos,  os sensatos considerandos do requerente.(3)
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 Testo publicado in, Diário da Câmara dos Senhores Deputados, Lisboa, Sessão do Parlamento de 16 de Fevereiro de 1880. Este texto chegou ao meu conhecimento graças à amabilidade do meu estimável amigo, João Custódio.
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(1) Regressando, ou voltando a ...
(2) Com a sua arguta e esclarecida inteligência, João Dubraz parecia antecipar, de forma premonitória, o que lhe viria a acontecer quinze anos depois: Sendo administrador do concelho de Campo Maior, Cristóvão de Albuquerque Barata, pai de Cristóvão Cardoso Cabral Coutinho de Albuquerque Barata (futuro Visconde de Olivã, que então teria 16 anos), mandou aquele encerrar a sala que cedera a João Dubraz, no edifício dos Paços do Concelho. para aí instalar a sua Aula de Latim, com entrada pela rua Major Talaya. Esta acto pode ser interpretado como represália pelas constantes denúncias que Dubraz fazia nos jornais, dos excessos, das injustiças, das ilegalidades e das arbitrariedades cometidas pelos responsáveias pela administação municipal.
Impedido de exercer a sua profissão em Campo Maior, João Dubraz teve de concorrer a nível nacional, tendo sido colocado em Amarante, no distante Minho. Aí deu o seu último ano de aulas, pois que quando, no fim do ano lectivo, veio de férias a Campo Maior, aqui faleceu, à beira de completar os 75 anos de idade.
3) Não é de estranhar que João Dubraz tenha sido atendido, de forma tão pronta e dedicada nesta sua pretensão, pois que, devido aos livros publicados e às suas colaborações em vários jornais, era bastante conhecido pela intelectualidade de Lisboa, embora  só lá se tivesse deslocado por três vezes e nunca por períodos muito dilatados. Mas tinha aí sinceros amigos que muito o apreciavam. Entre esses distinguia-se o Barão de Barcelinhos, figura notável como escritor, como político e como jurista. O Barão de Barcelinhos,  como o título de Visconde de Ouguela, com que depois foi distinguido indica, tinha fortes ligações a Campo Maior. Ele era um dos que mais divulgava em Lisboa, as obras publicadas por João Dubraz. E foi também um dos que mais acompanhou  João Dubraz na sua luta para que o concelho de Campo Maior não tivesse sido extinto e anexado, como freguesia ao concelho de Elvas, em 1868.

Francisco Galego